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Pensamento Cooperativo nº 4

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A educação e a formação cooperativa

A educação e a formação têm sido um dos princípios orientadores das cooperativas. Actuando praticamente em todas as áreas da actividade humana, o cooperativismo considera a educação e a formação como a base para a acção. António Sérgio, que em Portugal marcou o cooperativismo no século passado, dizia que antes de se constituir uma cooperativa se devia criar uma escola, indicando assim como a educação é necessária para uma correcta vivência cooperativa.

Nem sempre, porém, a educação e a formação cooperativa têm correspondência na prática cooperativa. As exigências impostas pelos mercados remetem para um plano de menor atenção o cuidado das cooperativas com os valores da educação e formação. Em consequência, quando as relações dos cooperadores com a cooperativa se esbatem, transformando-se em relações cliente/fornecedor ou assalariado/patrão e se perde a mais-valia cooperativa, surgem vozes verberando o abandono a que se votou a educação e a formação, como uma das razões que dão origem ao descalabro da cooperativa.

Radica na falta de educação e formação o mau desempenho das cooperativas, porque a diferença cooperativa está fundamentalmente presente numa visão do homem e da sociedade baseada nos valores da igualdade, da solidariedade, da responsabilidade, que nem sempre estão presentes nas relações sociais e económicas.

A Declaração sobre a Identidade Cooperativa, que a Aliança Cooperativa Internacional aprovou no Congresso do Centenário, em 1995, integra o princípio da Educação, Formação e Informação nos seguintes termos:

  • "As cooperativas promovem a educação e a formação dos seus membros, dos representantes eleitos, dos dirigentes e dos trabalhadores, de modo a que possam contribuir eficazmente para o desenvolvimento das suas cooperativas. Elas devem informar o grande público particularmente os jovens e os líderes de opinião, sobre a natureza e as vantagens da cooperação."

Cada época e cada movimento cooperativo, ou cooperativa, terão de assumir este cuidado na educação, de modo que a forma cooperativa esteja presente no interior de cada cooperador antes de se manifestar, como acção, na empresa cooperativa.

É da compreensão do cooperativismo e da interiorização dos seus valores que resulta a capacidade económica e social das empresas cooperativas.

A educação continua, pois, a ser o grande desafio que se apresenta às cooperativas. Um desafio não limitado ao interior de cada cooperativa, mas lançado em várias frentes e que, para ser ganho, terá de contar com diversos parceiros. Educar para o cooperativismo há-de iniciar-se na educação para a cidadania, quando os jovens se abrem para a vida em sociedade. Continuará mais tarde quando se formam os empreendedores sociais e económicos que serão os organizadores das futuras sociedades. Há-de manter-se, durante toda a vida, numa convergência entre o estudo e a vida profissional.

A aprendizagem ao longo da vida, como forma de participação na sociedade do conhecimento, é o desafio com que nos defrontamos. Assumimos por vezes esta aprendizagem numa atitude de aceitação, mais ou menos passiva, de conhecimentos e práticas que nos são propostas e a que nos conformamos.

Contudo, ao contrário dessa aceitação passiva, este "empreender a aprender", como dizia Henri Desroches, significa o espírito e a atitude de nos lançarmos num trabalho de procura e descoberta, ao mesmo tempo de nós próprios, na variedade das experiências pessoais e profissionais, mas também na descoberta e assimilação do que, sendo-nos exterior, é produto da reflexão e da experiência acumulada por tantos outros.

A ligação da experiência pessoal, e sobretudo profissional, com a aprendizagem é um processo para o qual começamos a despertar.

A verificação e validação dos conhecimentos adquiridos na prática empresarial é sobretudo necessária quando nos referimos às cooperativas e outras organizações da economia social, por duas ordens de razões.

A história deste tipo de organizações, vistas como empresas, não tem ainda uma duração temporal suficientemente longa para ter permitido uma construção sistematizada em termos teóricos que possa dispensar, sem prejuízo, o acompanhamento permanente da vida prática.

A relação destas organizações com os grupos sociais de menores recursos materiais, ou de menor representatividade social, originou uma menor atenção por parte dos estudiosos e das escolas e um débil interesse pelo seu estudo e pelo enquadramento, nos curricula escolares, dos temas que Ihes são específicos.

Desta forma, por alguma destas ou de outras razões, a prática dos "empresários sociais" não tem sido considerada e estudada nas suas características próprias, nem, como consequência, a formação dos mesmos "empresários sociais" tem sido devidamente organizada e promovida.

A importância já hoje atribuída, a nível nacional e internacional, à economia social, especialmente às cooperativas, exige que se considere, como necessária, uma formação específica para os que têm responsabilidades, ou se preparam para tal, no campo desta outra forma de empreender que é a economia social. E exige-se que essa formação específica tenha em conta os valores que a prática empresarial já vivida foi afirmando e confirmando, valorizando a tradição de gerações e reconhecendo, validando e completando o percurso de muitos homens e mulheres que têm, na prática, construído o cooperativismo e a economia social.

No presente número de "Pensamento Cooperativo" fala-se, pela primeira vez, do Projedo UCE (Universidade Cooperativa Europeia) a desenvolver-se nalguns países. É um projecto de formação à distância, do empresário social, na área da economia social e do cooperativismo. A denominação "cooperativa" e "europeia" manifestam a pedagogia cooperativa em que se desenvolve e o espaço geográfico que, num primeiro tempo, a enriquece em termos de formandos, formadores e conteúdos.

Sobre este projecto são publicados dois trabalhos. O "Referencial europeu do empresário social", primeiro documento do projecto, conclusivo da análise da prática empresarial nas organizações da economia social, elaborado com base em entrevistas realizadas nos quatro países participantes (Bélgica, França, Itália e Portugal), e um segundo texto referido directamente ao trabalho feito em Portugal.

A educação e a formação são ainda temas para dois outros trabalhos.

Sobre a educação e formação cooperativa desenvolvida actualmente no Brasil pela OCB - Organização das Cooperativas Brasileiras - é o testemunho de alguém - a Drª. Diva Benevides - que se tem dedicado com saber e perseverança ao tema da educação cooperativa, bem antes das responsabilidades que agora assume no recente serviço de educação cooperativa - o Sescoop.

Um segundo trabalho trata do pensamento de António Sérgio - doutrinador e principal referência cooperativa em Portugal, no século XX - sobre a educação. A necessidade de impregnar com os valores da cidadania e da cooperatividade, a educação escolar, justifica e incentiva o conhecimento e o debate das ideias sergianas sobre a educação.

"As cooperativas em Timor-Leste" é um trabalho que apresenta a situação do cooperativismo e as dificuldades com que se debate neste novo país, que na sua própria Constituição tem uma clara referência ao sector cooperativo.

O cooperativismo vitivinícola é analisado em dois trabalhos universitários. A importância do sector vitivínicola na economia portuguesa e a presença significativa das adegas cooperativas no mesmo sector, justificam o interesse do tema a nível dos estudos universitários.

A aprovação, em meados de 2002, do Regulamento sobre o Estatuto da Sociedade Cooperativa Europeia, por parte do Conselho da União Europeia, e da Recomendação sobre "A Promoção das Cooperativas", na Assembleia Geral da Organização Internacional do Trabalho, dá origem aos dois estudos apresentados sobre a Sociedade Cooperativa Europeia e sobre a Recomendação nº.193 da OIT.

Além das habituais secções, o presente número de "O Pensamento Cooperativo" inicia uma nova secção, "Documentos", em que se apresentam textos de reconhecido valor.

Manuel Canaveira de Campos

 

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